Gabriela du Saint

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O vinho

Em Histórias das estrelas, setembro 27, 2010 às 2:39 pm

Quando a água virou vinho, eu tive medo.

Tive medo de mim, me assustei com aquele corpo, e comecei a correr, sem direção, e sem olhar para trás, sem me preocupar com as barreiras.

Até a hora que alguém me parou, e eu relaxei e logo voltei a tencionar e queria correr mais, e a pessoa me perguntou:

-Ei ei, aonde você vai com tanta pressa?

-Estou fugindo.

-Fugindo de quê?

-Fugindo de mim, fugindo deste corpo.

-Por que foges de ti?

-Por que tenho medo.

-O que te fazes ter medo de ti?

-Eu não sei, por favor, deixes me ir…

E corri mais um pouco, e atravessei galhos, e árvores, e pedras era uma floresta densa e fechada. Mas nada me segurava, eu continuava correndo. Até chegar em um campo aberto, e lá eu me perdi, e eu girei, olhei para o céu, e busquei uma direção e tive vontade de chorar, e caminhei olhando para baixo. Entrei novamente na floresta, mas dessa vez, deixei as plantas me tocarem, e com calma fui andando e sentindo como quem quer conhecer aquele lugar… E fui entrando mais e mais na floresta, que foi ficando mais fechada.

E lá no fundo, eu encontrei um lugarzinho bem escondido. E o alguém estava lá denovo, e ele falou baixinho:

-Eu sabia que você ia me encontrar!

Eu perguntei o que ele estava fazendo ali

Ele me disse que gostava daquele lugar.

Eu fiquei de um lado e ele do outro.

Ele estava sentado e eu me sentei no outro canto, abracei minhas pernas em direção ao meu peito e fiquei ali em silêncio, apenas observando.

Nós nunca nos encarávamos, e o espaço era bem pequeno, quase não nos víamos, mas eu sabia que ele estava ali, e eu estava aqui. E isso me deixava calma.

Ele também parecia assustado. Mesmo imóveis, parecia que nos aproximávamos e o lugar ficava aquecido e cada vez mais agradável.

Eu não queria sair dali nunca mais.

Lagoa Espelhada

Em Histórias das estrelas, setembro 27, 2010 às 2:09 pm

Em terra firme, caminhava pressionando meus pés com força no chão, para ter certeza de que não estava mais voando.

Estes vôos tem me dado enjôo e tontura.

Nunca tive tanta alegria ao colocar os pés em terra. Terra seca. Árida.

A poeira levantava com o vento…

O tempo também estava de certa forma quente. Quente e seco.

E eu gostava de estar ali.

Mas dentro de mim era inverno frio e úmido. Por isso, eu sentia vontade de engolir a fumaça de poeira, para ver se conseguia deixar tudo seco dentro de mim, bem seco. Queria eu virar terra, uma escultura de areia, seca e firme. Estática, imobilizada. Sem uma gotinha de água. Queria ser ultrapassada pelo vento e que os meus passos tivessem o som de pedras quebradas… Clec, Clec, Clec…

E nesta secura externa e frio interno, caminhei até a beira de uma lagoa. Muito parecida com aquela em que eu conheci o Ser, mas era diferente. Note, que eu quase nunca paro de andar. Eu caminho, caminho, caminho…

A lagoa era feita com uma água límpida e cristalina, cheia de luz e tinha um brilho ofuscante, que quase me cegou. Afastei o rosto neste momento.

Tinha também muita neblina, e eu queria muito olhar para ela, queria ver o que tinha lá no fundo da neblina. Fui muito atraída. Uma atração incontrolável e injustificável. Uma atração simples sem muitos artefatos mágicos. Uma atração pela atração.

Ao baixar a poeira, vi, nitidamente o rosto de uma mulher, uma mulher forte, determinada.

Uma mulher que tinha os cabelos longos e usava brincos compridos.

Uma mulher que tinha o rosto pintado de forma delicada, com os traços naturais incrivelmente ressaltados.

Uma mulher que não é linda por sua aparência, mas que carrega uma pincelada de brilho mágico que dá a ela uma beleza única, rara.

Uma mulher, com túnica vermelha e fios dourados, que tem as mãos suaves, e o poder mágico de transformar realidades e histórias com um toque.

Ela tem um saquinho de veludo vinho, com moedas, moedas que fazem barulho. Ela é meio cigana e muito misteriosa. Era esse mistério que me chamava… que me atraía.

Sua boca tem um batom vermelho e sua fala é calma. Todos gostam de parar para ouví-la.

E quanto mais eu olhava para ela mais eu sabia quem ela era. E enquanto eu olhava atenta, ela sorria, balançava a cabeça com um rosto de certeza e uma confiança invejável. Seus olhos eram pacificamente felizes.

Me aproximei para vê-la bem de pertinho, e mergulhei fundo em sua imagem, e ela em uma respiração profunda, me engoliu para dentro de si. A respiração dela foi girando até seus pés, por dentro do corpo, tocando em todas as partes que podiam ser tocadas e retornou até sair.

Ao sair, deixou-a em um estado de prazer e relaxamento extasiantes.

Ao voltar de lá do fundo, eu apoiei as minhas mãos na borda da lagoa, arrumei meus cabelos movimentando a cabeça para trás na água e sai.

Quando saí, vi com naturalidade que estava nua e que aquele corpo não era o meu.

Aquele era um corpo grande e lindo de mulher, estranhei, mas não parei para pensar, aceitei-o imediatamente e fui em frente.

A água ao deslizar pelo meu corpo cintilava.

Era noite e eu estava de novo em uma floresta, a qual era bem verde, com folhas largas.

Não tive medo. Caminhei deixando um rastro de água, e fui direto, decidida, como quem sabe para onde está indo. Nada me tirava do foco.

Até a hora em que cheguei numa cachoeira e bebi daquela água. Bebi como se eu nunca tivesse bebido uma gota d’água em toda a vida.

Bebia deixando a água escorrer pelo meu queixo e a saboreava.

E enquanto isto eu pensava: Beberei desta água até que ela vire vinho.

E permaneci ali, me saciando, por muito tempo.

Primeiro vôo

Em Sem categoria, setembro 25, 2010 às 12:30 pm

Depois que a raiz partiu.

Prossegui minha caminhada. Estava firme e direcionada.

No meio do caminho, surgiu um tal conselheiro, olha só como as coisas são, e como as realidade múltiplas de interconectam, este conselheiro é saido daquelas gotas, e ele me falou:

-Venha, conheço um lugar onde você pode treinar seus vôos…

Mas eu respondi: Conselheiro, não estou querendo voar neste momento.

Mesmo sabendo que havia me inscrito na Escola de Saint e que aprenderia a voar. No fundo, acho que ainda estava querendo me recuperar de um vôo mal sucedido.

Mas ele falou: – Vamos até lá, não custa nada!

Eu só segui o conselho, pois ele era um conselheiro…

Chegando no alto do monte, estava morrendo de medo, tirei do bolso um balão que carrego para ocasiões como esta, enchi-o de ar e segurei firme nele.

Caminhei até a beiradinha do monte, próximo ao abismo. E como que me forçando a manter os pés no chão quase não indo adiante, um professorzinho menor que meus pés, deu um pequeno empurrão e gritou com voz fina:

‘Para voar precisamos perder o chão!’ – Lembrei imediatamente dos cegos transparentes!

Me agarrei naquele balão, torcendo para ele me sustentar. Muito angustiada e assustada, vi que já estava nos ares. E no meio de um longo questionário, uma agulha fixa, estourou meu balão. Amedrontada e decepcionada, com ombros caídos e semblante abatido, não curtia nem um pouco aqueles ares.

Vi vindo na minha direção um grupo de gaivotas, vestidas com camisetas-palavras, era até engraçado, e cada vez que olhava eu montava uma nova frase, olha o que eu consegui ler:

‘Tem males que vem para o bem, tem bens que vão pelos mares, tem ares que são dos males e tem mares que voam nos ares!’

Nessa distração, me dei conta, de que já não segurava mais o balão, e que voava por conta própria… E perguntei a mim mesma:

-Aonde estou indo?

E simplesmente, resolvi cessar vôo.

Fui reduzindo a velocidade, e sutilmente firmando meus pés no chão. Olhei para o alto, e vi que desci por uma porta, a qual se fechou.

Voltei para o meu caminho.

Voei, alto, mas não tanto…

Encontros

Em Histórias das estrelas, setembro 25, 2010 às 12:21 pm

‘Hora Seguinte’ é o nome de um tipo de floresta, lá tem umas gotas gigantes e um tipo de pessoas raras que vivem dentro delas.

Elas parecem estar sendo separadas, ou preparadas para algo especial…  elas bebem todos os dias minigotas de verdades não ditas, que  vem de um grande conta-gotas diáriamente.

Eu pessoalmente acredito que um dia estas pessoas serão as minigotas gigantes de um ultramega conta-gotas… E como há de ser, dirão para todos as tais verdades não ditas!

Mas, como tem sido raros os encontros com o Ser, eu me esforcei e falei com ele por transmissão de pensamento:

-Ser, nos vemos de surpresa esperada no dia em que o Sol nascer meio dia.

E surpreendentemente ele me respondeu: – Vamos testar nossas asas!

Alguém aí sabia que o Ser já teve asas de cera? - Isso é uma fofoca!

Vida entre parêntesis

Em Histórias das estrelas, setembro 25, 2010 às 12:08 pm

Continuando a história dentro dos parentesis…

Ao ingressar no parêntesis, senti como se todo meu corpo tivesse ficado em alerta total.

Tinha todos os sentidos ligados no último grau.

A primeira coisa que vi e senti, foi o frio, pois era noite e tudo estava muito silencioso.

Meus passos eram incertos e lentos e dentro de mim ainda morava um medo indeciso, que ora ou outra me fazia olhar para trás.

Carregava comigo além da minha bolsinha amarela, uma bolsa feita de flores e folhas amarradas com comida e algumas coisas para me aquecer.

Sem saber direito por onde andar, ouvi ao longe um som, que me chegou como um sinal.

Avistei lá longe, uma pequena faísca de fogo, que iluminava aquela noite fria.

Era uma faísca alegre que dançava e tocava flauta, como se estivesse num lugar quente que com certeza não era aquele.

Ela tinha luz ao seu redor, uma luz que me chamava pra perto.

E conforme eu me aproximava. Notava que não era uma faísca. Era um tipo de gente diferente, era um tipo que muda de forma mas é sempre gente. Nesta hora ele era quase um índio, ele me pegou pela mão com uma certa pressa, e me levou até a beira d’água. Ele estava muito feliz, o que me fez confiar. Outros dois estavam nos aguardando do outro lado da água, sentados na pedra. Como que brincando… Todo aquele clima me fez esquecer do frio.

Para chegar até as pedras, tivémos que cruzar as águas, mais uma vez, fui com elas apenas pela minha cintura. Se bem que às vezes vinham umas ondas mais altas que me molhavam a barriga inteira, e eu pulava e reclamava. O índio ria de minhas reclamações e me apressava ansioso.

Subimos as pedras, entramos na mata e fomos seguindo uma trilha, tivemos de andar curvados por um tempo, o chão era escorregadio. Alguém deu uma tocha para o índio que não largava da minha mão. Ele sabia muito bem o caminho e me levou.

Chegamos em um lugar cheio de pessoas desse tipo, todos eram felizes, cantavam e dançavam ao redor de uma fogueira, meus olhos brilhavam, e eu via o céu, era um céu diferente, cheio de estrelas… Era tudo diferente mas igual. Era tudo um sonho de verdade!

O índio que virava águia, inquieto, subiu em uma pedra bem alta, próxima ao mar, e fez um som mágico sair de dentro de uma concha!

E eu fiquei protegida até chegar na ‘Hora Seguinte’…

A biblioteca de Saint

Em Sem categoria, setembro 25, 2010 às 11:51 am

‘Estou agora, casulando numa concha!

Borboletas nascem em casulos que ficam presos na árvore…

Fadas nascem de pérolas que casulam em conchas!’

Li isso em um dos livros da biblioteca de Saint.

Sabe, que na primeira vez que estive aqui, eu queria fazer tudo, entender tudo, explicar tudo…

Por isso eu iluminava todas a prateleiras em busca de um livro!

Aí, eu fiquei indecisa de por onde eu começaria a ler…

E decidi sentar e deixar o livro vir até mim. E o livro que me veio se chamava Arte…

E ele me disse: ‘Não há nada como respirar o ar fresco de uma nova vida!’

Depois disso, outros livros tentaram pular em minha direção mas fui escolhida pela Arte antes…

Segurei o livro firme e fugi dali.

E minha cabeça começou a girar, e eu comecei a ver algumas pessoas que frequentavam este lugar, eles eram como Cegos Transparentes, e falavam sozinhos e diziam sem parar : ‘Para voar precisamos perder o chão!’

Lembro-me de dizer:

-Ai, ai… Estou tonta!

-Não sei mais a ordem dos fatos, não sei qual é a história de agora, não sei o que é verdade, não sei o que é sonho…

-Ai! Minha cabeça não aguenta mais!

Segurando um pouco a cabeça e um pouco as paredes da sala, fiquei muito tonta e procurei um lugar para deitar minha cabeça pesada…

Caminhei, cambaleei, procurei, tropecei e não encontrei…

Quando eu estava quase despencando no chão o Ser-de-Lá, me encontrou!

Ele apenas me olhou e sorriu…

E esse apenas foi o suficiente para minha cabeça deitar em paz!

Mistério sem sentido: Portal Dimensional

Em Mistério sem sentido, setembro 25, 2010 às 11:34 am

Eis que diante de mim se desdobra um portal, que me leva para uma nova dimensão, fora dos mundos!

Fora dali!

Além…

‘Você ainda não percebeu? Que eu estou mais lá do que cá?’

Disse o Gato da Alice no País das Maravilhas

‘Glurrrrrrrrrrb!! Quem enche essa xícara, flui neste canal???????’

A voz misteriosa diz, com voz misteriosa e sussurrada:

E então, todas as realidades acontecem simultaneamente!

E todas aquelas sinapses soníferas, aqueles sonhos delirantes (conta-gotas diários de verdade não ditas) estão de fato acontecendo, ou já aconteceram…

‘Eu pego carona na Libélula Lalinda, e ingresso no portal!

O portal que diz: JÁ!

Até Mais!’

Mistério sem sentido: O silêncio

Em Mistério sem sentido, setembro 25, 2010 às 11:31 am

Silêncio…

Isto é um relógio e ele tem uma voz misteriosa

e ele diz com voz misteriosa e sussurrada:

‘vivi anos essas dias…

Ao longo destes anos, construi um novo eu

o antigo era inexistente

e agora é duplo

um facão cortou o inexistente em dois!’

‘-Só uma dúvida: a imagem do espelho é real ou virtual?’

Xiu! Isso é uma câmara silenciosa!

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