Em terra firme, caminhava pressionando meus pés com força no chão, para ter certeza de que não estava mais voando.
Estes vôos tem me dado enjôo e tontura.
Nunca tive tanta alegria ao colocar os pés em terra. Terra seca. Árida.
A poeira levantava com o vento…
O tempo também estava de certa forma quente. Quente e seco.
E eu gostava de estar ali.
Mas dentro de mim era inverno frio e úmido. Por isso, eu sentia vontade de engolir a fumaça de poeira, para ver se conseguia deixar tudo seco dentro de mim, bem seco. Queria eu virar terra, uma escultura de areia, seca e firme. Estática, imobilizada. Sem uma gotinha de água. Queria ser ultrapassada pelo vento e que os meus passos tivessem o som de pedras quebradas… Clec, Clec, Clec…
E nesta secura externa e frio interno, caminhei até a beira de uma lagoa. Muito parecida com aquela em que eu conheci o Ser, mas era diferente. Note, que eu quase nunca paro de andar. Eu caminho, caminho, caminho…
A lagoa era feita com uma água límpida e cristalina, cheia de luz e tinha um brilho ofuscante, que quase me cegou. Afastei o rosto neste momento.
Tinha também muita neblina, e eu queria muito olhar para ela, queria ver o que tinha lá no fundo da neblina. Fui muito atraída. Uma atração incontrolável e injustificável. Uma atração simples sem muitos artefatos mágicos. Uma atração pela atração.
Ao baixar a poeira, vi, nitidamente o rosto de uma mulher, uma mulher forte, determinada.
Uma mulher que tinha os cabelos longos e usava brincos compridos.
Uma mulher que tinha o rosto pintado de forma delicada, com os traços naturais incrivelmente ressaltados.
Uma mulher que não é linda por sua aparência, mas que carrega uma pincelada de brilho mágico que dá a ela uma beleza única, rara.
Uma mulher, com túnica vermelha e fios dourados, que tem as mãos suaves, e o poder mágico de transformar realidades e histórias com um toque.
Ela tem um saquinho de veludo vinho, com moedas, moedas que fazem barulho. Ela é meio cigana e muito misteriosa. Era esse mistério que me chamava… que me atraía.
Sua boca tem um batom vermelho e sua fala é calma. Todos gostam de parar para ouví-la.
E quanto mais eu olhava para ela mais eu sabia quem ela era. E enquanto eu olhava atenta, ela sorria, balançava a cabeça com um rosto de certeza e uma confiança invejável. Seus olhos eram pacificamente felizes.
Me aproximei para vê-la bem de pertinho, e mergulhei fundo em sua imagem, e ela em uma respiração profunda, me engoliu para dentro de si. A respiração dela foi girando até seus pés, por dentro do corpo, tocando em todas as partes que podiam ser tocadas e retornou até sair.
Ao sair, deixou-a em um estado de prazer e relaxamento extasiantes.
Ao voltar de lá do fundo, eu apoiei as minhas mãos na borda da lagoa, arrumei meus cabelos movimentando a cabeça para trás na água e sai.
Quando saí, vi com naturalidade que estava nua e que aquele corpo não era o meu.
Aquele era um corpo grande e lindo de mulher, estranhei, mas não parei para pensar, aceitei-o imediatamente e fui em frente.
A água ao deslizar pelo meu corpo cintilava.
Era noite e eu estava de novo em uma floresta, a qual era bem verde, com folhas largas.
Não tive medo. Caminhei deixando um rastro de água, e fui direto, decidida, como quem sabe para onde está indo. Nada me tirava do foco.
Até a hora em que cheguei numa cachoeira e bebi daquela água. Bebi como se eu nunca tivesse bebido uma gota d’água em toda a vida.
Bebia deixando a água escorrer pelo meu queixo e a saboreava.
E enquanto isto eu pensava: Beberei desta água até que ela vire vinho.
E permaneci ali, me saciando, por muito tempo.