Gabriela du Saint

Archive for PM|Yearly archive page

Cidade de Porcelana

Em Sem categoria, setembro 6, 2011 às 11:10 pm

Em meio aos aplausos calorosos da platéia, abracei Lobomen em forma de despedida. Naquele instante, soube que me afastaria dele. Mas antes que eu conseguisse me emocionar e vivenciar aquele momento de despedida ideal, o Ar saiu bufando da copa e me raptou furioso.

Apesar de estar presa e carregada, fiquei com a sensação de que acabei não me despedindo de verdade.

Quando me livrei do apego da confusa despedida que ficou para trás, notei que o Ar, com seu jeito durão de asno, havia me levado para o alto de uma montanha. Mas era um lugar tão alto, que só víamos nuvens lá embaixo.

Ele parecia alguém que quer ajuda, mas não sabe como pedir e daí age de forma agressiva. Notei que ele estava aflito e sofria muito, como quem convive com um espinho durante um tempo de quase sempre. Fiquei calma, e me mostrei atenciosa, quando ele percebeu que eu não ia fugir, ele se sentiu seguro para me soltar. Aos poucos, ele foi contendo sua raiva, até se tornar frágil…

Nesse momento, ele esticou o braço direito para a frente e fez com a mão um movimento de limpeza celestial e virou o rosto, na tentativa de esconder a lágrima que deslizava de seus olhos. E então, as nuvens se movimentaram, e comecei a ver lá embaixo uma cidade, a princípio desfocada pela quantidade de neblina, mas aos poucos foi possível ver nitidamente a famosa Cidade de Porcelana.

‘Um lugar lindo, delicado, frio e vazio.

Onde tudo é de porcelana, desde casas até os seres que vivem lá.

Tudo é belo e lustrado, e quando tem Sol, tudo brilha com a cara da alegria.

As pessoas não se movimentam, e aceitam a pose em que foram esculpidas.

Elas conseguem apenas mudar a sua posição no espaço como peças de um tabuleiro.

Mesmo assim, as pessoas convivem, conversam e constroem histórias.

O existir delas não é um viver como a gente está acostumado, elas ‘tirintinam’ sonoramente.’

Ouvi dizer que um dia, o Sol foi capturado, o céu se fechou, e houve relâmpagos e trovões. Podia-se ouvir ao longe cavalos e gritos. E aos poucos, toda cidade foi ficando suja, coberta por uma poeira cinza, até ser totalmente invadida pelos Teoristas, que vinham armados com martelos, e cujas bocas imprimiam textos, os quais eram gerados automaticamente sem nenhuma conexão lógica, em longas listas de papel.

Quando eles cruzaram a cidade aos cantos e prantos, dançaram a batida do martelo e o estilhaço dos seres com o gosto da destruição. Depois, abandonaram a cidade, deixando todos os seres meio cacos.

Neste momento, decidi visitar este cenário, atravessei a nuvem de poeira cinza, e vi uma única casa intacta, que era iluminada pelo Sol. Então, eu senti o calor e o aconchego, e eu me aproximei cada vez mais, até entrar na casa. Quem me recebeu foi a Dama de Porcelana.

Antes de entrar na casa, percebi que ela era muito mais frágil do que a cidade do lado de fora, e eu pensei: -Ai, o chão vai trincar se eu colocar os meus pés pesados.

A Dama se aproximou, e com um sorriso triste, me recebeu com prazer, disse que eu podia e devia ficar a vontade. Logo que eu entrei, esbarrei em algo que se quebrou. A Dama não aguenta nenhum som de estilhaço, isso a deixa arrepiada e arisca como um gato. E ela se volta para mim e diz:

-Estilhaço me lembra o dia da invasão! Neste dia, os corpos de porcelana ficaram ao meio e foram lançadas dentro deles sementes as quais foram regadas com uma chuva de óleo quente, que estouraram feito pipoca, empurrando para fora uma estranha camada de pele de óleo que reformou as existências. Dizem, que foi desse dia em diante, que as pessoas de meio caco, passaram a ter novas poses, alguns conseguiram desenvolver poses belas, mas a maioria se atrapalhou no crescimento e se embolou pelo caminho. Veja, se você olhar daqui da minha janela, vai perceber que não tem mais seres de cem porcento porcelana. Apesar disso, as sementes internas continuam sempre estourando, isso faz com que agora eles possam se deslocar com autonomia.

Ela se afastou da janela, e na maior delicadeza que a última cem porcento porcelana pode ter, lamentou:

-Ah se eu pudesse fazer com que os teoristas engolissem todas as palavras que sairam de suas bocas. Ah se eu pudesse levar estas palavras até o fundo do coração deles, e amarrar tudo com um nó. Se bem que, agora já não sei mais se posso chamar de malvadas as sementes de caos que confortam e desconfortam.

E congelada, a Dama torceu o pescoço que trincou e fez: Tlink.

E alguém começou a tocar um Jazz.

Luta da Noite: Esquilo x Caranguejo

Em Sem categoria, abril 1, 2011 às 11:15 am

Agora, era a vez do Lobomen entrar em cena, fui vestida de pirata nesse encontro…

Antes de pisar no palco, pensei, cheia de adrenalina:

-Estou vivendo minhas fantasias empoeiradas, com a pressa do dia que termina antes da hora de ir para a cama!

Quando a cena começou, fiz chover sobre o Lobomen, de forma mágica e bela, balões cheios de boas intenções e muitos sonhos.

Em cena, demonstrando toda sua habilidade, ele fez questão de estourá-los com seus caninos. Outras vezes, ele usava aquelas velhas garras trêmulas de um louco desesperado, depois de lamber uma bancada de sanidade, e por fim, disse:

-Esquilinha, prefira os cacos de plástico extensíveis que salpicam no chão aos balões gordos de sonhos furados.

-Ele com traje de mágico, tirou de suas caixas uma caixa roxa enfeitada com estrelas prateadas, e puxou a tampa, e pediu para que eu olhasse lá dentro.

Como estava com tapa-olho cobrindo meu olho direito olhei cuidadosamente com o olho esquerdo, e vi la dentro uma a cena da preparação de uma luta: Esquilo x Caranguejo. Que acabou em 3 segundos com a mordiscada fatal das presas do Caranguejo na guela macia do Esquilo, o qual suspirou com voz afinada e numa bela dramatização o seguinte poema:

‘A Lágrima de V.N.D. nasce do engulo de uma decepção e do esforço que puxa do coração a força para um meio sorriso.

O lado da boca que sobe espreme o olho direito, que solta a lágrima

fazendo relaxar tanto a face quanto as costas em seu deslize.’

Cambaleando na beira da morte, o esquilinho deita e diz à plateia de olhos fechados:

‘Ó Morte, te aguardo prostrado neste chão de ringue.

Meus olhos fechados se lembram que depois de algumas noites mal dormidas os sonhos voltam a aparecer.’

E no seu último suspiro, morreu sorrindo.

Tantas camadas de histórias puxaram minha cabeça para trás, e me fizeram girar e ouvir todas as vozes que também queriam contar suas histórias…

E a cena se encerrou com o desfile de alguém carregando uma placa dizendo:

Viva lá para sobreviver aqui!

Lobomen de Cabelos Compridos

Em Sem categoria, abril 1, 2011 às 9:28 am

Desde a última apresentação com a Aranharranha ficamos todos paralisados por causa do arrepio, por muito tempo…

Fomos amolecendo lentamente, mas mantínhamos a dureza do arrepio congelado em partes variadas do corpo, que hora ou outra apresentavam defeitos de coerência.

Lobomen amolecido ficou perdido. Olhou para os lados, atrapalhado como sempre, e perguntou: Quem apagou as luzes?

Ninguém entendeu nada, só depois notamos que todo aquele tempo de congelamento arrepiado, fez crescer os pêlos de Lobomen, que agora apresentava uma face envelhecida coberta pelos cabelos compridos e mal ajeitados.

Enquanto eu reparava na mudança corporal de Lobomen, ouvi as pulgas de seus fios me contarem a seguinte história:

Os fios de cabelo se embaraçam a cada ventinho que cruza o seu caminho, uns se enrolam daqui, outros fazem nós ali. E você é nesse emaranhado de histórias malucas, apenas mais um fio no embolo destes chamados Nós.

São os Nós que formam as bolinhas de fios cruzados e encambalhotados em meio aos fios de começo alinhado. Mesmo que sejam de curvas paralelas, os cachos pendurados alegram os fios retos e pouco volumosos.

O pente insiste em encarar estes nós, repetindo perguntas que por vezes os afrouxam. Os fios que caem pelos ombros de Lobomen ficam felizes e seus antigos nós, grudam no pente em fila, como se fossem pulgas presidiárias de um camburão.

Os fios caídos no ombro, de vez em quando sentem falta da tensão das pulgas nozais em seus corpos. É por isso que, às vezes, quando o pente recolhe os nós, os fios, quase no final, escondem algumas pulgas e as deixam renozar ao longo do dia só para sentir o pulo do cacho na molagem de queda rumo ao ombro.

Os problemas desta vida, Menina-Esquilo, são pulgas mordisqueiras que movem o enrosco fiozal de ‘los enozados pré-libre mola cacheada’ de queda em ombros!

Apagar contas!

Em Sem categoria, janeiro 14, 2011 às 7:23 am

Na Sala Apertada, os três assistentes, ainda estavam discutindo sobre ‘A Conta’. Fiquei na espreita, ouvindo o que diziam…

Aranharranhaojarro explicou impaciente para o Lobomen da onde vinha a conta:

-Ora, um conto que não é de verdade é uma conta! E enquanto ela não é apagada, não vira conto e fica a dívida! E eu sou responsável por cobrar as contas!

Lobomen perguntou:

-Mas porque eu tenho que apagar a conta? Tem alguma coisa estranha aqui. Quem escreveu o conto mentiroso foi a Garota-esquilo!

Os três, bem os dois mais a força do Ar, articularam um plano para cobrar a conta de mim. Mas como eu tinha visto tudo decidi pensar antes de tirá-los dali.

Voltei à mesa do Sr. Demiserria e perguntei:

- Da onde vem esta conta que articulam me cobrar?

- Lalinda, esta conta nasceu de uma lágrima de VND que caiu em uma folha.

- Que tragédia! – Me desesperei! – Aonde está a folha? Me dê! Posso rasgá-la, queimá-la ou triturá-la!

- Não, sinto muito Lalinda, dívidas são dívidas, podes apagá-la transformando-a em um conto.

- Sr. Demiserria, como faço agora para transformá-la em um conto se Ele já a partiu ao meio na história que veio a seguir? Não existe outra maneira de apagá-la?

- A partiu ao meio? Como assim Lalinda?

- Ora, metade da conta virou conto, a parte que cabia a mim eu fiz… só restou a outra em que Ele atua. E é isso que espero em minha angústia!

Com os olhos ele me disse como a conta é apagada, mas eu não quero dizer.

No palco do bar, preparei uma cena. Chamei pessoas que passavam, para assistir meu show, o bar ficou lotado com umas 8 pessoas.

Tirei Aranharranha da Sala Apertada, trouxe-a no palco para atuar em uma cena de espontaneidade. Me disfarcei de Cobra e disse à Dona Aranharranha:

-Olá, você quer se esconder atrás de mim?

Dona Aranharranha, não era nem um pouco tímida, e atuou de forma brilhante menosprezando a Cobra:

-Por que eu me esconderia atrás de Cobranças como você? riu riu riu riu riu…

-Ora, porque você é velha e peluda! Você se arrepia com qualquer coisa! E não fica bem parecer arrepiada em público, não é mesmo?

Imediatamente Aranharranha se espetou, e gaguejou:

-Já p-posso me retirar daqui dona Lalinda?

Segurei firme e disfarçadamente em sua mão, e disse baixinho:

-Estamos atuando Aranharranha, não tenha vergonha de nada!

Cadê o ponto final?

Em Sem categoria, janeiro 14, 2011 às 7:10 am

Ao terminar de ler, me entristeci, não entendi direito o ‘porquê’ e nem a ‘quê’ aquela carta se referia exatamente. Olhei novamente para o papel e notei que depois de ‘o grand finale’ não tinha um ponto final, e sim uma vírgula. E perguntei com raiva ao seu Reportê:

- Aonde está o ponto final? Por que vírgulas, vírgulas atrás de vírgulas?

Muito nervosa, peguei os três observadores da cena: Lobomen, Aranharranha e Ar. Levei-os para uma sala apertada, e tranquei-os ali.

Me acalmei um pouco, voltei, sentei de frente ao Sr. Demiserria, apoiei as mãos em minhas bochechas e os cotovelos na mesa, e desmoronada, com os olhos transbordantes de lágrimas eu pedi:

- Escreva um último conto, e neste, por favor, coloque um ponto final.

Escreva um conto que me conte sobre a paz. Escreva algo que me faça rir e que seja leve. Escreva algo que termine com um ‘ela viveu feliz para sempre’.

Ele me olhou com olhos amorosos e ternos e disse:

-Lalinda, suas lágrimas são de verdade! Os contos que você quer são de fadas! Você tem asas, mas nunca foi uma fada, apesar de ter tido vontade!

-Lalinda, você sabe que fala uma língua que sai pelos olhos, e quando diz as coisas, sabe que foi entendida. Agora, doce Lalinda, olhe nos meus olhos para você entender bem o que eu tenho para te dizer…

(Sabe, em Saint, as coisas que dizemos com a boca nunca são exatamente de verdade, verdadeiro é o que dizemos com o olhar!)

E foi quase isto que os olhos de Sr. Reportê Demiserria me explicaram:

‘Quando te disse que devias assassinar seus contos com teu nome, era para te mostrar, que não é possível existir um ‘para sempre’ assassinado.

Somos nós que assassinamos e somos assassinados em contos!

Se procuras algo para crer, creia nisso: Enquanto pudermos contar e ser contados podemos assassinar e ser assassinados!

Ora Lalinda, você será ‘para sempre’ assassinada como Lalinda Gabriela du Saint em meus contos. Pois a cada conto novo, te assasssinarei novamente. Quero a sua participação até meu último conto!

E é assim que você se forma e deforma!

Nos papéis de contos em que ficas assassinada no chão, e nos novos papéis fresquinhos chegam em tuas mãos para serem contados!

Pense Lalinda, quantos contos você já contou? Pretendes por acaso, ponto finalizar a contagem de contos?

Lalinda das Lalindas, contos são para ser sempre contados! Mas por serem contados não terás contos para sempre! Por isso, assassine os contos que tiver que assassinar!

E sim, não te preocupes com nada, pois o último conto já vem com um ponto marcado no pé da folha!’

Reportê de Miserria falou, com voz audível, enquanto tirava um maço de folhas de sua bolsa velha de couro:

-Agora, vá lá na Sala Apertada e chame os três aqui!

Contos e Contas!

Em Sem categoria, janeiro 11, 2011 às 11:10 am

Depois de plenitudear, voltamos ao bar!

Arrrrrrrrr! – Gritou a Aranharranhaojarro de trás do balcão!

O Ar saiu de lá da porta flexível dos fundos, ele é um cozinheiro fortão, daqueles que tem tatuagem de âncora no braço, cabeça careca e avental sujo na cintura!

- A senhora me chamou? – Falou com voz grossa e estúpida, no sentido de burro.

Aranharranhaojarro é uma velha peluda mal-humorada de óculos com voz irritante.

- Os impostores voltaram! Faça-os pagar! Agora! – Ela ordenou com tom de mimada!

Eu sem entender nada me firmei na frente do balcão:

-Vamos com calma aí dona Peluda. Impostores nada, Eu sou Lalinda Gabriela du Saint! Eu que conto as histórias aqui! E ele é quem paga as contas! – Puxei o Lobomen para frente do balcão escapando da enrascada.

Lobomen suava frio por não ter dinheiro.

Eu me inconformei:

-Pera-lá. Como tudo mudou tão depressa? Saint não tem essas coisas… Não tem bichos feios, não tem velhas peludas e nem burros fortões. Saint não tem cobranças e nem dinheiro! Saint é feito de contos e não de contas!

Afinal de contas, quem é que está contando meus Cantos?

Fiquei nas pontas dos pés a procura do responsável!

Vi lá no fundo do salão, um ser tímido e covarde, escondido em uma mesa, com papel e pena nas mãos. Ele era um ser lesma reptílico amarelo mostarda envelhecido com tons de verde musgo.

Encascado e encolhido, me olhou por sobre os óculos.

Me aproximei e questionei delicada mas inquisitivamente:

-Por acaso, o senhor está contando os meus Cantos?

Surpreendente ele levantou a folha amarela cheia de escritos borrados, após tê-la assassinado e me entregou a falecida.

Li o escrito silenciosamente, e era isto que me dizia:

À Lalinda Gabriela du Saint,

Mesmo seus seres estranhos são belos.

Mesmo suas horas confusas boas.

Mesmo seus bares escuros raros!

Lalinda, voas tão alto!

Você está aprendendo muito rápido as lições da Escola de Saint!

Você se forma e deforma em poucos dias!

Sua deforma é um sinal de reconhecimento.

Terás o reconhecimento de todos aqueles que já foram deformados aqui!

Lembre-se apenas de uma coisa para sempre:

‘Cante ou conte as contas e os contos!

Mil contos são mil contas!

Não troque-os por trocados!

E assassine todos os contos com teu nome!’

E então, feche os olhos, faça noite. Escureça e respire!

Abra os olhos novamente,

Observe tudo e sorria!

Curve-se de fronte e agradeça!

Este é o seu ‘grand finale’,

Assassinado

Reportê Demiserria

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.